6. GERAL 24.4.13

1. TERROR  DE NOVO, O PESADELO
2. TERROR  O N DA SEGURANA
3. GENTE
4. POLCIA  PROFISSO: MATADOR
5. JUSTIA  O DEVER DE REAGIR
6. EDUCAO  BOLETIM  VISTA
7. ESPECIAL  BRASIL PARA TODOS
8. GEOPOLTICA  O SCULO DO PACFICO
9. ARTIGO  J.R. GUZZO  UM MUNDO ESCURO

1. TERROR  DE NOVO, O PESADELO
O atentado em Boston, concebido para matar e mutilar inocentes, reacende o temor do terrorismo em meio  gigantesca caada a um jovem de 19 anos.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     O garotinho Martin Richard, 8 anos, foi assistir  maratona de Boston com os pais, a irm de 6 anos e o irmo de 12. A famlia Richard deu uma olhada num trecho da corrida, saiu para tomar um sorvete e posicionou-se perto da linha de chegada, para saudar os vizinhos que conclussem a prova. Jeff Bauman, 27 anos, foi torcer pela namorada, que corria sua primeira maratona. Krystle Campbell, 29 anos, acompanhada da melhor amiga, estava ali fazendo o que fazia desde a infncia: festejar junto  linha de chegada. Patrick e Jessica Downes, ambos maratonistas e recm-casados, resolveram correr juntos. Beth Roche, 60 anos, viajou 1500 quilmetros para ver a filha de 33 anos participar da maratona. Em determinado momento, conseguiu chamar a ateno da corredora do meio da multido  "Vai, Becky, vai!"  e ento se dirigiu  linha de chegada para testemunhar seu triunfo. 
     Estourou a primeira bomba. Eram 2h50 da tarde de segunda-feira, quando dois teros dos 23.000 maratonistas j haviam concludo a corrida. Dez segundos depois, 160 metros adiante, estourou a segunda bomba. Socorrido, Jeff Bauman foi levado de cadeira de rodas para uma ambulncia, e s acordou no dia seguinte, no hospital. Teve as duas pernas amputadas abaixo do joelho. Na quarta, passou por uma terceira cirurgia, para adaptar os membros  prtese. Krystle Campbell, severamente ferida, morreu no hospital, enquanto a melhor amiga corria o risco de perder uma perna. Um e-mail enviado aos amigos do casal Patrick e Jessica diz que "os dois sofreram amputaes abaixo do joelho". Um dia depois, Patrick estava fora da UTI. Jessica ainda corria risco de perder o outro p. A filha de Beth atravessou a linha de chegada, fez contato visual com a me, mas perdeu-a de vista na confuso da exploso. Trs horas depois, encontrou-a num hospital, onde sofria uma cirurgia no joelho. Beth passa bem. Da famlia Richard, o pai e o irmo de 12 anos escaparam sem ferimentos. A me e a menina de 6 anos ficaram gravemente feridas. Martin, de 8 anos, o menino que recentemente fora fotografado com um cartaz em que pedia paz e havia escrito "chega de machucar as pessoas", morreu. Seu pai, quando voltou para casa  noite, foi visto por uma vizinha. Estava mudo e lvido. 
     "Suas ltimas horas foram tudo o que um garoto de 8 anos pode esperar: com a famlia, tomando sorvete num evento esportivo", disse o presidente Barack Obama, no culto ecumnico que homenageou as vtimas. Uma emocionante viglia foi feita pelos moradores de Dorchester, onde a famlia de Martin mora. O ataque  maratona, evento realizado h 117 anos em Boston, terminou com trs mortos  a terceira vtima fatal  a chinesa Lu Lingzi, 23 anos, que estudava na Boston University e pretendia seguir carreira no mercado financeiro. Entre os 183 feridos, pelo menos onze sofreram alguma amputao, incluindo uma menina de 9 anos, que perdeu uma perna. A exploso foi concebida para isto mesmo: matar ou mutilar o maior nmero possvel de inocentes. 
     As bombas foram feitas a partir de panelas de presso convencionais, de 6 litros, cheias de pregos, esferas de chumbo e explosivo. Fragmentos coletados pela polcia indicam que foram acionadas por um cronmetro de cozinha, e no por controle remoto. Os investigadores dizem que as bombas foram depositadas no local dentro de sacolas ou mochilas. Ao explodirem, os artefatos atingiram os membros inferiores das vtimas.  um sadismo todo prprio orientar um atentado numa maratona para causar o maior dano nas pernas, o principal instrumento dos maratonistas. 
 emergncia dos hospitais, chegavam pessoas sem pedaos, com membros pendurados por um fio de pele, com ossos e msculos  mostra, objetos encravados no corpo pela fora das exploses. Uma vtima chegou com as chaves do carro, que estavam no bolso da cala, incrustadas na coxa. " como as exploses de bomba de que ouvimos falar em Bagd, Israel ou outros lugares trgicos do planeta", descreveu Alasdair Conn, chefe da emergncia do Massachusetts General Hospital, considerado o melhor dos Estados Unidos (veja o quadro na pg. 86). 
     Quando Boston tentava retomar a rotina trs dias depois do ataque, coisas estranhas comearam a acontecer. Na quinta-feira  noite, num crime rarssimo na regio, um segurana do cmpus do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, foi baleado. Morreu no hospital. No demorou muito, a polcia soube que  dois jovens haviam sequestrado um carro com o motorista dentro. Teve incio a caada que colocou Boston e arredores sob toque de recolher, no bojo de uma operao policial gigantesca. "Fiquem dentro de casa e tranquem a porta", orientou o governador Deval Patrick. A perseguio comeou em Cambridge, cidade onde fica a Universidade Harvard, e acabou em confronto em Watertown, localidade nas redondezas. 
     Em torno de 1h30 da madrugada, depois de trocar tiros com a polcia durante a fuga no carro roubado, Tamerlan Tsarnaev, 26 anos, cuja famlia veio da Chechnia, no sul da Rssia, acabou crivado de balas. Morreu no hospital, segundo a polcia. Seu irmo mais jovem, Dzhokhar Tsarnaev, 19 anos, numa manobra surpreendente, conseguiu escapar do enorme cerco policial  a p e aparentemente ferido. Durante todo o dia, ele foi alvo da maior caada humana da histria da Nova Inglaterra. Pouco antes das 9 da noite, a polcia de Boston anunciou que havia capturado o jovem de 19 anos, que se escondia dentro de um barco, no ptio de uma casa em Watertown. 
     Por que os dois irmos cometeram essa atrocidade, se  que foram eles mesmos os autores do atentado  maratona? O mais velho pedira a cidadania americana mas, em razo de um confronto fsico que tivera com a namorada, as autoridades americanas negaram seu pedido. O mais jovem naturalizou-se americano no ano passado. Os dois so muulmanos, sem histrico de crimes. Amigos e conhecidos os descreveram como pacatos, inteligentes e integrados. O pai, localizado na Rssia, e uma tia, moradora do Canad, demonstraram surpresa com as notcias e insinuaram que alguma armao pudesse estar sendo montada contra os jovens. No seu perfil numa rede social, Dzhokhar, o mais jovem, postou uma frase do Coro: "Faa o bem, Al ama os que fazem o bem". Eram terroristas disfarados? 
     A volta do pesadelo do terrorismo no demorou a se espalhar para o resto do pas. Em Nova York, as forcas de segurana tomaram as ruas num patrulhamento ostensivo. As denncias de pacotes suspeitos tiveram um aumento de 300%. Em Washington, o servio secreto isolou a Casa Branca. Parte de dois prdios do Senado foi fechada por denncias de pacotes e cartas suspeitas. Por algum tempo nenhum avio levantou voo no aeroporto de Boston. Em Oklahoma City, onde um atentado matou 168 pessoas em 1995, a prefeitura foi evacuada sob a suspeita de que um caminho abandonado, estacionado nas imediaes, estivesse carregado de explosivos. 
     Nesse clima de temor, o americano exibiu sua grandeza: nada de concluses precipitadas sobre terroristas ou terrorismo. No se viu uma acusao contra religies, etnias ou ideologias. Os americanos tinham todos os motivos para dar uma resposta excessiva  carnificina de Boston, mas, com a maturidade de uma sociedade que aprende e evolui com eventuais erros do passado, no se violou liberdade individual em busca de culpados, nem se deu guarida a discursos de dio.  um admirvel exemplo de civilidade quando se mexe com um trauma. Emira Myers, 10 anos, na simplicidade da infncia, verbalizou o sentimento coletivo. Ela foi  casa do garotinho Martin e deixou um bichinho de pelcia na porta para homenage-lo, junto com flores ali postas por vizinhos. Emira era colega de escola de Martin. Perguntada como se sentia, disse: "Com medo". E emendou: "Eu nunca sei onde as pessoas do mal esto".

O ATAQUE TERRORISTA NA MARATONA DE BOSTON 
As duas exploses ocorreram perto da linha de chegada cerca de quatro horas depois do incio da prova, na segunda-feira passada.

Nmero de mortos: 3
Nmero de feridos: 183

A 1 exploso ocorreu por volta das 14h50, a cerca de 30 metros da linha de chegada.
A 2 exploso ocorreu perto de 10 segundos depois da primeira.
Os hotis Mandarin e Lenox foram evacuados devido a suspeita de bombas.

AS VTIMAS FATAIS
KRYSTLE CAMPBELL, 29 ANOS. Desde a infncia, ela aparecia na maratona.
MARTIN RICHARD, 8 ANOS. No cartaz, chega de machucar as pessoas. Paz.
LU LINGZI, 23 ANOS. Seu objetivo era trabalhar no mercado financeiro.

NA HORA DO CAOS ELES ESTAVAM L
     Por seu rico passado histrico de vilarejo fundado pelos primeiros colonos puritanos e pelo sotaque to singular de seus 600.000 habitantes, Boston  uma cidade nica nos Estados Unidos. A regio metropolitana tem uma concentrao inusual de universidades de qualidade  e de hospitais. Segundo um levantamento da U.S. News World Report que avaliou quase 5000 estabelecimentos, Boston detm a exclusividade nacional de ser sede de dois dos dez melhores hospitais americanos: o Brigham and Women's Hospital e o Massachusetts General Hospital, considerado o nmero 1 no pas por ser o nico com alto desempenho em nove de uma lista de dezesseis especialidades mdicas. 
     Juntos, os dois centros de excelncia somam 1700 leitos, atendem a 150.000 emergncias, fazem 93.000 internaes e realizam 70.000 cirurgias por ano. Mas, na semana passada, depois da exploso das duas bombas na maratona, os mdicos de Boston mostraram que, alm de ter competncias tcnicas, aprenderam tudo o que era preciso aprender nos vrios treinamentos para casos de emergncia  queda de avio, choque de trens do metro, atentados a bomba. No setor de emergncia dos hospitais, muitos mdicos adquiriram experincia no tratamento de feridos no Iraque e no Afeganisto. Minutos depois da notcia do atentado, todo mundo sabia para onde ir e o que fazer. 
     No posto mdico da maratona, onde as equipes esperavam apenas casos de desidratao e hipotermia, o trabalho de triagem dos feridos no atentado foi excepcionalmente rpido e eficaz. Evitou mortes: havia muitos feridos que, se no recebessem atendimento em vinte minutos, perderiam a vida. Nenhum hospital ficou sobrecarregado. Todos entraram em prontido antes da chegada da primeira vtima. No Boston Children's Hospital, outro centro de excelncia, enquanto as ambulncias estavam sendo carregadas no local da maratona, j havia quatro equipes em torno de camas vazias no setor de emergncia, esperando apenas a chegada das vtimas. A solidariedade tambm apareceu nos hospitais, na forma de doaes de dinheiro s vtimas, bichos de pelcia s crianas, cestas de comida. James Thompson, vice-presidente do Massachusetts General Hospital, definiu: "Apesar da escurido que atravessamos, vimos muita luz por aqui".


2. TERROR  O N DA SEGURANA
Evitar ataques e atentados como o de Boston em eventos que renem pblico numeroso  um enorme desafio que o Brasil est prestes a enfrentar.
ALEXANDRE SALVADOR E CAROLINA MELO

     As bombas que explodiram na maratona de Boston pem em evidncia um dos maiores desafios que autoridades no mundo inteiro enfrentam: garantir a segurana em eventos que renem multides. Um desafio que o Brasil vai enfrentar quatro vezes entre junho deste ano e agosto de 2016, com a realizao da Copa das Confederaes, da Jornada Mundial da Juventude, da Copa do Mundo e da Olimpada do Rio de Janeiro. Os especialistas so unnimes em afirmar que  impossvel garantir a segurana com 100% de eficcia em eventos como esses. Maratonas so particularmente complicadas pela extenso, sobretudo quando serpenteiam por dentro das cidades. A maratona de Londres, realizada neste domingo, por exemplo, ter 37.000 participantes e  esperado 1 milho de espectadores. A Volta da Frana cobre mais de 3000 quilmetros e mobiliza 13.000 agentes de segurana. 
     Os eventos esportivos, em particular, costumam ser alvos preferenciais para atentados ou ataques terroristas. Segundo um levantamento conjunto das universidades de Griffith e de Tecnologia de Sydney, desde a invaso da Vila Olmpica durante os Jogos de Munique, em 1972, que culminou com a morte de onze membros da delegao israelense, ocorreram no mundo quase 200 atentados ou tentativas de ataque relacionados aos esportes. Disse ao correspondente Andr Petry, de VEJA, o americano Mike White, especialista em bombas que durante vinte anos, na polcia de Nova York, foi encarregado de cuidar da segurana de dignitrios estrangeiros: "O dilema  o equilbrio entre segurana e liberdade. Voc precisa estar aberto para receber atletas e o pblico, que vo entrar e sair dos estdios, e oferecer a eles um grau razovel de segurana". Ningum deseja criar um estado policial que perturbe o evento. 
     Os atentados s torres gmeas, em Nova York, no fatdico 11 de setembro de 2001, mudaram as estratgias de segurana em grandes eventos em todo o mundo. Assim como nos aeroportos, a revista e o uso de detectores de metal se tornaram padro em estdios e arenas esportivas nos Estados Unidos, na Europa e, posteriormente, em outros continentes. O monitoramento por cmeras foi intensificado, com a instalao de sistemas de reconhecimento facial. Na Olimpada de Atenas, em 2004, os gastos com segurana cresceram 738% em relao aos Jogos de Sydney (veja o quadro na pg. 90). Desde o 11 de Setembro houve tambm uma verdadeira revoluo na preparao, no treinamento e na inteligncia das autoridades responsveis pelos eventos esportivos. No ano passado, a organizao dos Jogos de Londres foi considerada impecvel em quase todos os quesitos, inclusive segurana. Mas, aps o encerramento das competies, foram divulgados os verdadeiros triunfos da polcia inglesa. A Rede Nacional de Contraterrorismo, criada depois dos atentados a bomba ao metro de Londres, em 2005, conseguiu identificar e desmantelar duas conspiraes terroristas s vsperas do inicio dos Jogos. "Logo aps os ataques de 11 de setembro de 2001, a presso sobre os organizadores de grandes eventos na questo da segurana se multiplicou. A chave est no gerenciamento de risco.  preciso uma integrao completa entre as foras policiais, comit organizador, voluntrios, polticos, associaes, enfim,  necessrio que todos falem a mesma lngua, e que apresentem os diferentes cenrios do que pode dar errado. Se trabalharem isolados, as falhas aparecem", disse a VEJA o alemo Helmut Spahn, diretor do Centro Internacional para a Segurana no Esporte (ICSS), baseado no Catar e chefe da segurana da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. 
     Para garantir a tranquilidade das multides na Jornada da Juventude, na Copa das Confederaes, na Copa do Mundo e na Olimpada do Rio, o governo federal criou a Secretaria Extraordinria de Segurana para Grandes Eventos. Segundo o chefe do rgo, o delegado Jacinto Valdinho Caetano, a principal preocupao  uma ao terrorista seguida por um ataque ciberntico que provoque um apago tecnolgico durante algum dos eventos, dificultando a ao das foras de segurana e a transmisso das competies. Para reduzir esse risco, o governo investiu 1,16 bilho de reais em equipamentos de segurana para a jornada (que ter a presena do papa Francisco), da Copa das Confederaes e da Copa do Mundo. At a Olimpada, esse gasto pode chegar a 2 bilhes de reais. Entre os equipamentos adquiridos, h alguns inditos na Amrica Latina, como detectores de gases que funcionam por jatos de ar (veja o quadro ao lado). 
     A estratgia de defesa se baseia principalmente na inteligncia para antecipar eventuais ataques e na revista e filmagem incessante de todos os locais de eventos para detectar movimentos suspeitos. Nas entradas de espectadores e carros nas arenas ser instalada uma central de deteco, com aparelhos de raio X e scanner que revistaro os torcedores e veculos sem a necessidade de contato fsico. Helicpteros  dotados de cmeras que enviam via satlite imagens detalhadas em tempo real  sobrevoaro todas as arenas esportivas. No cho, carros policiais tero equipamentos semelhantes ao utilizado pelo Google Street View para mapear torcedores chegando ou saindo dos jogos. Nos estdios ser instalada uma cmera a cada 10 metros  policiais  paisana com cmeras acopladas ao corpo reforaro a filmagem interna. 
     "A Copa vai ser to filmada quanto o Big Brother. Com a diferena de que ser um evento acontecendo simultaneamente em doze das maiores cidades brasileiras", compara outro responsvel pela segurana da competio. Mesmo com todo esse aparato, h uma situao que apavora os responsveis pela segurana da Olimpada do Rio: a maratona, o nico evento olmpico em via pblica, no qual  impossvel revistar todos os espectadores que se espalharo ao longo dos 42 quilmetros da prova. Ataques como o de Boston so muito mais fceis de executar e difceis de prevenir nesse tipo de circuito do que em arenas fechadas, com detectores de metais. No Rio 2016, alm do policiamento normal, sero tomadas duas precaues extras: monitorar por terra e pelo ar todo o percurso e infiltrar um policial  paisana a cada 100 metros da prova.

PREVENO OLMPICA
Atentados terroristas fizeram disparar os gastos com segurana nas Olimpadas (em dlares)
BARCELONA 1992: 66 milhes
ATLANTA 1996: 108 milhes (Bomba no Parque Olmpico matou duas pessoas e feriu 111)
SYDNEY 2000: 179 milhes 
Em 2001, houve o ataque s torres gmeas, em Nova York
ATENAS 2004: 1,5 bilho
PEQUIM 2008: 6,5 bilhes
LONDRES 2012: 2 bilhes (Desde a exploso de quatro bombas no metro e em um nibus, em 2005, Londres montou uma ampla estrutura antiterrorismo, aproveitada nos Jogos)

A ESTRATGIA CONTRA O TERROR
O Brasil comprou 1,16 bilho de reais em equipamentos de segurana para a Copa do Mundo e a Copa das Confederaes. At a Olimpada, o investimento deve chegar a 2 bilhes de reais.

PRINCIPAIS APARELHOS COMPRADOS
 Detectores de metal - Com raios X e scanners, revistam espectadores e veculos sem que eles precisem ser tocados manualmente.
 Detectores de gases - So parecidos com raios X, mas operam por jatos de ar, e no por radiao. No h equipamento semelhante na Amrica Latina.
 Equipamentos antibomba - Minirrobs, roupas especiais, cpsulas de segurana e alicates de preciso usados para localizar e desarmar explosivos.
 Desencarceradores - Alicates que unem fora e preciso para retirar vtimas de exploso presas em escombros, com risco mnimo de amputao 
 Imagiadores areos - Produzem imagens dos eventos por helicpteros e as enviam via satlite a centrais de controle.
 Centrais de controle - Recebem em tempo real as imagens de cmeras instaladas em helicpteros, carros da polcia, ruas e estdios e acopladas a policiais  paisana para detectar ameaas de atentado e traar imediatamente planos de conteno.

HAVER QUATRO NVEIS DE CONTROLE
Uma central de controle em cada estdio.
Outras dez centrais mveis em reas prximas ao estdio.
Uma central regional em cada cidade-sede.
Duas centrais nacionais, uma no Rio de Janeiro e outra em Braslia, espelhadas e que utilizam redes diferentes de informtica. Se uma sofrer uma pane ou um ataque terrorista, a outra assume o comando da segurana.

CONTINGENTE DE SEGURANA
Jornada Mundial da Juventude: 12.000 homens
Copa das Confederaes: 25.000 homens
Copa do Mundo: 50.000 homens
Olimpada: 50.000 homens
Todos esses eventos tero nos estdios 1 agente de segurana para cada 30 a 50 espectadores. Em jogos normais no Brasil, a proporo  de um policiai para cada 200 a 300 pessoas.
Fonte: Secretaria Extraordinria de Segurana para Grandes Eventos


3. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Mariana Amaro

O AMOR TRANSFORMA 
As mudanas que o amor no opera: a modelo ANA BEATRIZ BARROS, h um ano e meio namorando o egpcio e, nas palavras dela, "muulmano light" Karim El Chiat, surgiu nos desfiles da ltima temporada carioca com duas novidades para contar. A primeira: no vai mais desfilar nem fazer fotos em topless. Sim, foi El Chiat quem pediu. A segunda: ela deixou de fumar. E aqui no foi para atender propriamente a um pedido. "Ele foi esperto. S dizia: 'Eu sei que voc vai parar'." conta. Com a assessoria informal do namorado, dono de uma rede de hotis, ela abre agora dois negcios: uma clnica de esttica e uma linha de roupas de praia. No sero burqunis, mas tero seu limite. "Fio dental eu acho cafona."

T NEM A
"No vou fazer esforos desesperados para manter a minha popularidade", disse PSY na apresentao de sua nova msica, Gentleman. A julgar pelo que se viu em seguida, os esforos no foram menos desesperados do que em Gangnam Style, o sucesso original do sul-coreano do qual Gentleman parece primo-irmo  mais irmo do que primo, dado que inclui as mesmas caras e bocas e tambm um requebrado engraado. Assim que estreou, o clipe foi banido do canal de TV pblico da Coreia do Sul com o argumento de que a cena em que o cantor aparece chutando um cone de rua configura "abuso de propriedade pblica". Parece at coisa do vizinho do norte, o tirano gorducho Kim Jong-um, de quem, alis, PSY est a cara.

LOUCO POR ELAS?
Em quase quatro anos de casamento, foram duas separaes no oficiais e um sem-fim de fofocas  de traio do lado dele e de perdo do lado dela. Trs semanas atrs, DEBORAH SECCO e ROGER FLORES resolveram se separar mais uma vez, "depois de conversar muito, sem briga, sem ningum sair batendo porta", como diz uma amiga do casal. O ex-jogador e agora comentarista de TV deixou a casa onde eles moravam no Rio e foi arrastar mgoa e chinelinho em Miami. J a atriz, que faz a Giovana no seriado Louco por Elas, refugiou-se no atual consultrio sentimental dos famosos, o Twitter: "Que Deus ilumine nossas vidas", escreveu. Nenhum dos dois deu entrada ainda na papelada do divrcio. Hum...

O BELO LEGADO DE THATCHER
A homenageada nunca ligou para o consenso  dizia preferir as convices. J sua neta AMANDA, de 19 anos, no consegue escapar dele. De sobretudo preto, chapu de aba e com as faces docemente rosadas, ela amoleceu at o mais empedernido corao trabalhista ao ler na Catedral de St. Paul uma passagem de feso em homenagem  av. Com sotaque americano  ela nasceu nos Estados Unidos e cresceu na frica do Sul; agora, estuda no Texas , no piscou nem gaguejou diante da rainha Elizabeth e dos tantos lderes mundiais que compareceram ao funeral da ex-premi britnica. Da av, com quem pouco conviveu, parece ter herdado mais do que a coragem de enfrentar uma plateia. Na formatura do colgio, foi eleita a aluna com o "maior potencial para mudar o mundo". 

FOI MAME QUEM FEZ 
Ela j ganhou dezessete prmios Grammy (quatro a mais que Michael Jackson e dez a mais do que Madonna) e acaba de ser eleita pela Time uma das 100 pessoas mais influentes do planeta. Tanta notoriedade gera chateao proporcional. De volta de um passeio romntico em Cuba com o marido, BEYONC virou alvo de deputados republicanos  disseram que ela havia violado as leis de embargo ao pas, que incluem veto ao turismo na Castrolndia. Dias depois, em um show na Srvia, bastou aparecer com uma roupa mais abusadinha para merecer a pior acusao disponvel no showbiz: a de copiar Lady Gaga. O corpete, cravejado com 30.000 cristais,  obra da me da cantora, em conjunto com trs estilistas.


4. POLCIA  PROFISSO: MATADOR
Contratado para eliminar Eliza Samudio, o ex-policial Bola integrava um grupo de extermnio de mtodos brbaros. Chegou para ele a hora da verdade.
LESLIE LEITO

s 9 horas desta segunda-feira, 22, o Brasil comear a assistir ao derradeiro captulo da histria do assassinato de Eliza Samudio, amante do ex-goleiro Bruno Fernandes, do Flamengo. Trata-se da passagem mais tenebrosa na trama do crime. Pela primeira vez desde que Eliza desapareceu, em junho de 2010, os holofotes estaro voltados para o ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, homem que, segundo o Ministrio Pblico, foi contratado por Bruno para eliminar a moa. Os sete jurados que estaro reunidos no frum de Contagem, na Grande Belo Horizonte, vo conhecer a trajetria de um assassino frio e sanguinrio, que fez da morte uma profisso e se tornou figura proeminente de um grupo de extermnio formado por policiais mineiros. Paira sobre ele a suspeita de ter tirado a vida de dezenas de pessoas ao longo das ltimas dcadas. Bola  ru em quatro processos por cinco desses homicdios  material ao qual VEJA teve acesso. Ali est exposta, com riqueza de detalhes, toda a crueldade com que executava suas vtimas, lanando-as ainda vivas aos ces rottweiler que mantinha num lugar ao qual se referia como a "casa de matar". 
     Paulista de Santo Andr, Bola, 50 anos, fez trs tentativas de seguir carreira na polcia, entre 1984 e 1992. Em todas elas acabou sendo expulso da corporao por indisciplina. Passou a atuar ento como informante, integrando clandestinamente equipes de investigao do Grupamento de Resposta Especial (GRE), a tropa de elite mineira. Aos poucos, especializou-se em matar. "Ele era pobre, proscrito e atirava muito bem. Logo virou pistoleiro profissional", conta um ex-colega de grupamento. Membros da cpula policial reconheciam em Bola um habilidoso atirador. Tanto que, em 2008, ele foi chamado para dar aos recrutas cursos de tiro e de adestramento de ces. As aulas aconteciam no tal stio onde funcionava a "casa da morte"  um casebre de madeira convertido no palco das brbaras execues, na periferia de Belo Horizonte. 
     Foi ali que, cinco anos atrs, ele torturou e matou dois bandidos que deram o azar de cruzar o seu caminho. Donos de vasta ficha criminal, Paulo Csar Ferreira e Marildo Dias de Moura foram capturados e torturados por Bola e seus comparsas. Entregues aos ces, seriam mais tarde enforcados. Testemunhas deram a dimenso do horror: o grupo esquartejou os corpos e arremessou os pedaos  fogueira. Ciente da histria, um ex-chefe da tropa de elite mineira denunciou o bando  corregedoria. A investigao ganhou vulto em julho de 2010, quando a polcia invadiu a casa de Bola  procura de pistas sobre o desaparecimento de Eliza Samudio. Feita 27 dias aps o assassinato, a busca foi incua (os vestgios j haviam sido apagados), mas trouxe  luz a cpia de uma foto em que uma cruz desenhada a caneta assinalava o rosto de Paulo e Marildo. Bola e mais trs policiais foram denunciados pelos homicdios. O medo sempre paralisou as testemunhas da selvageria. Em 2012, Bola foi absolvido de outro assassinato depois que a irm da prpria vtima, presente  cena do crime, desistiu de depor. 
     De acordo com o Ministrio Pblico, ele foi escolhido para eliminar Eliza justamente por seus mtodos. "Bruno queria algum experiente e com sangue-frio at mesmo para matar uma criana", afirma o promotor Henry Wagner de Castro. Segundo Castro, quem apresentou Bola ao brao-direito de Bruno, Luiz Henrique Romo, o Macarro, foi o tambm ex-policial Jos Lauriano de Assis Filho, o Zez  empresrio de um grupo de pagode patrocinado pelo goleiro. O rastreamento de sinais de celular de Bola e Macarro mostra que os dois se falaram duas vezes na vspera do crime e outras seis nos noventa minutos que antecederam o assassinato. Em seu julgamento, Bruno admitiu que foi mesmo ele o homem contratado para matar Eliza. O MP sabe inclusive o preo do servio: 70.000 reais. Primo do goleiro, Jorge Luiz Rosa narrou o horror que testemunhou: Eliza foi enforcada, esquartejada e teve uma das mos atirada ao canil de rottweilers. Talvez o caso ficasse  sombra, como tantos outros, no fosse por uma deciso inesperada do matador  ele preferiu poupar Bruninho, o filho da moa com o goleiro. O atestado de bito de Eliza Samudio, emitido no incio do ano, traz o endereo do lugar onde ela viveu seus ltimos instantes de vida: Rua Araruama, 173.  a casa de Bola. 


5. JUSTIA  O DEVER DE REAGIR
Por ser menor de idade, o assassino de Victor Deppman vai ficar no mais que trs anos internado. Isso tem de mudar.

     Nas sociedades primitivas, a nica forma de punir um assassino era pela vingana. O mtodo inclua o emprego da fora fsica e podia ser executado pelo ofendido, seu cl ou sua tribo. Nesse processo, no se discutia o que era crime, quem podia ou no ser punido, nem as circunstncias em que o assassinato ocorrera  em outras palavras, no se discutia a culpabilidade. A vingana era tambm indistinta, o que quer dizer que ningum se importava em dar ao crime uma punio proporcional  sua gravidade. Tal conta no existia. Hoje existe. Mesmo assim, o jovem que matou o estudante Victor Hugo Deppman para roubar seu celular vai ficar no mais do que trs anos internado em uma instituio para menores, j que, na data em que cometeu o assassinato, estava a trs dias de completar 18 anos, idade da maioridade penal brasileira. Pode se dar a isso o nome de justia? 
     Os defensores da manuteno desse patamar se apoiam em trs argumentos principais: antes dos 18 anos, os jovens ainda no esto plenamente conscientes de seus atos; a idade penal  a mesma no Brasil desde 1940 e mud-la agora, sob a influncia de mais um crime brbaro, seria ceder  emoo; baixar esse limite no diminuiria a criminalidade. 
     A levar em conta o primeiro argumento, o psicanalista Contardo Calligaris, em sua coluna na Folha de S. Paulo, lembrou que o Brasil teria de elevar a maioridade penal para 25 anos, j que  s nessa fase que o crtex pr-frontal, a parte do crebro responsvel pela tomada de decises, est plenamente desenvolvido. A maturidade  relativa aos olhos da lei. Os mesmos jovens inimputveis por serem menores de 18 anos tm discernimento para tomar decises como escolher o presidente da Repblica (16 anos) e manter relaes sexuais com um adulto sem que isso seja considerado estupro presumido (14 anos). 
     Contra o argumento de que mudar a lei agora seria ceder  emoo,  preciso lembrar que alteraes na legislao impulsionadas pela indignao no so necessariamente ruins. O aumento do tempo necessrio para que um preso por crime hediondo passe do regime fechado para outro mais leve s foi implantado por causa da reao da sociedade ao assassinato brutal do menino Joo Hlio, no Rio, em 2007. Da mesma forma, a Lei da Ficha Limpa foi  aprovada pelo Congresso no rastro da indignao popular com os seguidos escndalos de corrupo. 
     Resta o terceiro argumento.  verdade que no h estudos que comprovem uma relao direta entre a reduo da maioridade penal e a diminuio da criminalidade. Mas  indiscutvel que a manuteno do atual patamar aumenta o contingente de jovens potencialmente "instrumentalizveis" por bandidos mais velhos interessados em driblar a lei. O nmero de menores em instituies de correo triplicou em uma dcada: de 7600, em 2002, passou para 22.000, em 2011. Essa exploso foi impulsionada principalmente por infratores internados por trfico de drogas. 
     A proporcionalidade entre a ofensa e a punio  uma conquista da civilizao  e compe o que chamamos de Justia. Victor Deppman no avanou contra o seu assassino nem relutou em entregar-lhe seu celular. Morreu mesmo assim. O Brasil tem o dever de reagir por ele.


6. EDUCAO  BOLETIM  VISTA
Ao expor suas notas, um grupo de escolas instaura a cultura da cobrana e d um passo em prol da excelncia.

     Desde que o governo federal criou um termmetro para aferir o nvel do ensino em todas as 68.000 escolas pblicas do pas, h seis anos, um grupo expressivo delas aderiu a um comportamento muito comum entre os maus alunos: esconder a nota vermelha. E elas no tm sido poucas, como enfatiza com riqueza estatstica a srie histrica do Ideb, o ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica. Ao manterem  sombra o mau desempenho, os colgios que patinam na sala de aula do a pais e alunos a iluso de que esto em um lugar de alta excelncia, fazendo-os cultivar uma viso distorcida da realidade. Isso ficou evidente em uma pesquisa do Ministrio da Educao em que os pais foram instados a cravar uma nota para a qualidade da educao ofertada aos filhos. O resultado? Uma avaliao para l de generosa  8,6 numa escala de zero a 10 , em contraste com a vida real, bem mais dura. A mdia do ltimo Ideb no passou  de 5. Recentemente, trs estados (Rondnia, Gois e Minas Gerais) e quase duas dezenas de municpios tomaram uma interessante iniciativa em prol da transparncia. Por lei ou decreto, eles passaram a obrigar as escolas a afixar na entrada uma placa com a nota no Ideb bem visvel, alm da mdia da rede de ensino  qual pertencem  algo didtico, para que todos entendam o seu verdadeiro patamar. 
     So experincias recentes, mas seus efeitos mais imediatos j sinalizam o ciclo virtuoso que pode se desencadear a partir da divulgao dos resultados. Entre as escolas que rastejam no Ideb, os professores despertaram para o indicador  e para a necessidade de se mexer para avanar nele. "Ao expormos a nota, assumimos perante a sociedade o compromisso de melhorar", diz Denise  Gonalves, diretora da escola estadual Pro Vaz de Caminha, de Belo Horizonte, que tirou 4,5 no Ideb  enquanto a mdia do estado bateu em 6. Os pais, por sua vez, tm agora como cobrar e monitorar o desempenho dessas escolas, base fundamental para almejar uma mudana de nvel. Tambm os que disparam na mdia ganharam um incentivo para prosseguir na trilha da qualidade. No Ciep municipal Pablo Neruda, no Rio de Janeiro, o impacto da placa que alardeia um dos melhores Idebs do pas (8,3) se fez sentir muito alm dos muros escolares. "A fila de alunos interessados em estudar aqui s cresce", orgulha-se a diretora Maria Joselza Albuquerque. 
     O MEC at envia s escolas cartazes com a nota de cada uma, mas quase ningum os exibia. Foi com a instituio de leis  uma ideia lanada em artigo do economista e articulista de VEJA Gustavo Ioschpe  que o cenrio comeou a mudar. Tramita ainda na Cmara dos Deputados um projeto de lei que pode conferir  medida abrangncia nacional.  um primeiro passo, mas no o nico para fazer bom uso do Ideb. "O MEC deve orientar os educadores a ter o indicador como um ponto de partida para saber onde e como avanar", observa a especialista Maria Helena Guimares. Com essa lio benfeita, quem sabe um dia no haver mais razo para as escolas terem vergonha do boletim. 
GABRIELE JIMENEZ


7. ESPECIAL  BRASIL PARA TODOS
Desde o sculo passado, o pas no recebia tantos imigrantes. Com diploma e emprego garantido, eles esto mudando  para melhor  as feies do Brasil.
FERNANDA ALEGRETTI E CAROLINA RANGEL

     Quando, em 2011, duas centenas de sul-coreanos aportaram de mala e cuia em Caucaia, no litoral do Cear, os moradores desse municpio de 325.000 habitantes ficaram to surpresos que os estrangeiros no podiam caminhar pela praia sem que algum pedisse para tirar foto com eles. Dois anos depois, os sul-coreanos j no chamam mais a ateno dos caucaienses. Ganharam a simpatia da populao ("Eles so educados e esto sempre rindo", diz o segurana Francisco Amaral), viraram parte dela e at j modificaram a paisagem da cidade. Alm de quatro restaurantes tpicos, Caucaia ganhou um hotel e um karaok coreanos. L, os imigrantes, quase todos engenheiros contratados pela Companhia Siderrgica do Pecm  uma parceria das empresas sul-coreanas Dongkuk e Posco com a brasileira Vale , passam as noites cantando msicas de seu pas, encorajados por doses de soju, a aguardente feita de sorgo. Os sul-coreanos do Cear so exemplo de um fenmeno que est mudando as feies do Brasil. Desde o fim das imigraes italiana e japonesa na metade do sculo passado, o pas no recebia tantos estrangeiros assim. Mas, ao contrrio daqueles que chegaram aqui dcadas atrs, eles no vm em navios apinhados, no esto fugindo da guerra ou da misria nem intencionam comear uma vida nova de enxada na mo. Os funcionrios de Pecm, assim como os noruegueses atrados para o Rio pelo pr-sal e os espanhis que se fixaram no Cear para trabalhar nas usinas elicas, vieram de pases com economia forte e desembarcam nos aeroportos brasileiros com emprego garantido e uma bateria de reunies agendadas. No seguem mais a trilha da incerteza, mas o rastro do capital. 
     Com eles, o Brasil vive a maior onda de imigrao qualificada de sua histria. Em vinte anos, o nmero de profissionais com ao menos ensino superior completo passou de menos de 5000 para mais de 40.000, segundo dados do Ministrio do Trabalho. Nesse tsunami migratrio, um dos grupos mais numerosos  o de chineses e coreanos. Nos ltimos dois anos, o ritmo de chegada desses estrangeiros ficou prximo do registrado no auge da imigrao japonesa, na primeira metade do sculo XX. De 1917 a 1940, desembarcaram em mdia dezenove japoneses por dia no Brasil, um contingente que totalizou 164.000 pessoas. Agora, os chineses vm aportando na proporo de onze por dia  foram mais de 4000 s no ano passado, e 65% dos que pediram visto de trabalho tm diploma de curso superior. Os coreanos somaram 1858 em 2012, o que significa cinco entradas por dia, segundo dados da Polcia Federal. Ao contrrio dos imigrantes de outras nacionalidades, que tendem a se distribuir por diversos estados e cidades, esses orientais vm quase sempre para trabalhar em empresas e fbricas com matriz em seu pas de origem. Como muitas dessas companhias escolheram cidades pequenas para se fixar, a presena deles ganhou mais visibilidade. Em Piracicaba, por exemplo, a instalao da fbrica da Hyundai, no fim do ano passado, fez com que desembarcassem por l mais de 700 sul-coreanos, na maioria profissionais com alta qualificao, como executivos, gerentes, engenheiros e tcnicos ultraespecializados. Hoje, em alguns bairros da cidade, j  mais fcil encontrar kimchi, a comida tpica daquele pas feita  base de acelga condimentada, do que coxinha de galinha. 
     Fenmenos como o que o Brasil vive agora so um bnus para qualquer pas. A entrada macia de estrangeiros qualificados traz novas tecnologias, inova mtodos de trabalho, estimula a competitividade e incentiva o aprimoramento de trabalhadores e de setores da economia. Nos Estados Unidos, os imigrantes so responsveis por quase 50% das startups  empresas que apostam em novas tecnologias e que depois podem valer bilhes  do Vale do Silcio. O governo americano concede todo ano 225.000 vistos de trabalho a estrangeiros ultraqualificados.  mais de cinco vezes o que o Brasil expede no perodo. "Em todas as pocas da sua histria, o Brasil sempre se beneficiou da vinda dos imigrantes. Eles trazem inovao e colaboram com a formao do pas. Agora, no ser diferente. Quanto mais, melhor", diz Rosana Baeninger, professora de demografia da Unicamp. O outro lado da moeda  o temor natural de que os estrangeiros acabem ficando com os empregos que seriam destinados aos brasileiros  no se justifica nesse caso. Da atual leva de imigrantes qualificados, a maior parte chega para preencher uma lacuna com que as empresas deparam no Brasil: a falta de profissionais habilitados para fazer o que elas precisam. 
     Um estudo feito no ano passado pelo grupo americano Manpower com 700 pequenas e grandes empresas instaladas no Brasil identificou que 71% delas tm dificuldade para preencher vagas por falta de mo de obra qualificada, sobretudo na rea tcnica e de engenharia. Diante disso, o aumento de profissionais vindos de outros pases , novamente, mais uma soluo do que um problema. "A chegada de pessoas aptas a ocupar postos de trabalho que esto vagos por falta de brasileiros qualificados  de grande utilidade e representa uma economia para o Brasil, j que os investimentos para a preparao desses profissionais j foram feitos em seu pas de origem", afirma o professor da Faculdade de Economia e Administrao da USP Jos Pastore, especialista em relaes de trabalho. 
     No que a adaptao desses estrangeiros ao pas ocorra sem solavancos. s vezes, o processo inclui dificuldades inusitadas. Os funcionrios sul-coreanos que a Hyundai mantm no pas, por exemplo, precisaram fazer um esforo para aprender a trabalhar menos, j que a carga horria na Coreia do Sul , em geral, de doze horas por dia, contra a mdia de oito horas no Brasil. A direo da Hyundai brasileira  onde no h operrios estrangeiros  teve de passar a controlar o horrio de sada dos empregados para no ser punida pelas leis nacionais. 
     Um estudo da associao Brasil Investimentos e Negcios (Brain) mostrou que um estrangeiro demora em mdia 45 dias para reunir os dezenove documentos necessrios para tirar um visto que lhe permita trabalhar no pas  e ainda tem de esperar outros 45 para cumprir a obrigatria etapa seguinte, ser atendido em um consulado. Na Austrlia, o processo todo dura pouco mais de um ms. Mesmo assim, os entraves da burocracia no vo diminuir o mpeto dos estrangeiros interessados em trabalhar no Brasil. J o mesmo no se pode dizer da economia. Os novos imigrantes no esto singrando os mares em busca de um recomeo de vida num pas promissor, nos primrdios do seu desenvolvimento. Eles esto vindo para dar mais um passo em sua carreira ascendente e para participar, juntamente com sua empresa, das oportunidades de uma economia pujante de um pas em ascenso. Enquanto isso for verdade, o dinheiro continuar a chegar ao Brasil. E, atrs dele, estaro os imigrantes. 

A ALDEIA GLOBAL
O total de pessoas que deixaram seu pas de origem para viver em outros continentes.
AMRICA LATINA: 23 milhes para viver nos EUA e CANAD
AMRICA LATINA: 4,4 milhes para viver na EUROPA
EUROPA: 1,3 milho para viver na AMRICA LATINA
EUROPA: 7,6 milhes para viver nos EUA e CANAD
EUROPA: 2 milhes para viver na AMRICA SIA
EUROPA: 2,8 milhes para viver na OCEANIA
SIA: 275.000 para viver na AMRICA LATINA
SIA: 17,6 milhes para viver na EUROPA
SIA: 13,6 milhes para viver nos EUA e CANAD
FRICA: 3,8 milhes para viver na SIA
FRICA: 8,2 milhes para viver na EUROPA

VOLTA S RAZES
Helena Siu cresceu em Jundia, no interior de So Paulo, onde os pais, chineses, eram donos de uma pastelaria. Na escola pblica em que estudava, s tinha amigos brasileiros. Helena fazia questo de no seguir as tradies dos pais e nunca quis namorar um chins (demorou um ano para apresentar o namorado brasileiro  famlia). Hoje, porm, como executiva de uma rede hoteleira especializada no atendimento ao pblico chins, seu trabalho consiste sobretudo em entender a cultura  qual resistiu tanto. "A melhor forma de deixar os clientes confortveis  conhecer seus hbitos e o jeito como pensam," Na rede hoteleira em que ela trabalha, o nmero de hspedes orientais deve subir 30% neste ano.

UM LAR PARA OS CHINESES
Depois de ser demitida do ltimo emprego em banco, rea em que trabalhou por duas dcadas, a economista Cristiane Pei descobriu uma nova vocao. Filha de chineses e fluente em mandarim, foi ao Consulado da China em So Paulo em busca de oportunidades. Ouviu que havia muitos empresrios aportando no pas e que eles tinham dificuldade para encontrar imveis. "Os chineses so desconfiados, exigentes e preferem fazer negcios com conterrneos", diz. Em pouco tempo, Pei percebeu que tinha habilidade para o ramo. S neste ano, a corretora para a qual trabalha j negociou cerca de cinquenta contratos de imveis com chineses, boa parte deles graas a Pei. Ela lembra que, recm-chegado ao Brasil, seu pai vendia seda e vasos da China de porta em porta nas casas chiques do Jardim Europa. So as mesmas casas que, com a ajuda dela, os chineses hoje alugam e compram.

S PARA MENORES
Estdios de fotografia que s retratam crianas no so novidade em So Paulo. E estdios especializados em fotografar bebs com 100 dias de vida? Ah, isso s tem em Moema.  l que a cada vez mais populosa comunidade coreana da capital encontra o Kakun, o estdio que a biloga Anna Ahn e seu marido abriram no ano passado para continuar uma tradio do seu pas natal. At por volta dos anos 60, a mortalidade infantil na Coreia do Sul era to alta que o fato de uma criana sobreviver at o centsimo dia era motivo de celebrao  significava que ela tinha boa chance de se salvar da morte precoce. At hoje, muitos pais sul-coreanos comemoram essa data fotografando seus bebs. No estdio de Anna, o pacote mais vendido inclui fotos das crianas em trs momentos: aos 100 dias, aos 200 e no primeiro aniversrio. O casal planejava pagar o investimento em um ano, mas a freguesia aumentou tanto que o negcio pulou para o azul em apenas quatro meses. Anna e o marido viajam sempre para a Coreia do Sul, mas no pensam em voltar definitivamente para l. O pequeno Yuhan Kim, de 2 anos, nasceu em So Paulo e crescer no Brasil.

SE DEIXAREM, ELE FICA
H trs anos, o chins Wu Dejun, de 41 anos, trocou a cidade de Wuhu por Jacare, no interior paulista. Veio com a misso de implantar a montadora Chery no Brasil. A fbrica est prestes a ser inaugurada, mas Dejun, vice-presidente da companhia, mal arranha o portugus.  que, at agora, os empregados do escritrio so apenas trinta, todos chineses. E tudo o que Dejun faz nas poucas horas livres  jogar badminton ou basquete  com chineses. A situao deve mudar. A fbrica ter apenas 5% de funcionrios vindos da China. Os empregados sero, no total, 4000 at 2018, quando a montadora deve estar funcionando a pleno vapor. Se depender de Dejun, ele ainda estar por aqui. "O ambiente de trabalho e a qualidade de vida so melhores que na China. O nico ponto fraco  a segurana."

O HOMEM DO DINHEIRO
Funcionrio h mais de vinte anos do Woori Bank  o banco sul-coreano que tem 57% de capital estatal, o equivalente ao nosso Banco do Brasil , Mun Kyun Ro recebeu em 2008 uma misso: abrir a primeira representao da instituio na Amrica Latina. Depois de quatro anos, Mun pde comemorar. No ano passado, o Woori Bank abriu suas portas em So Paulo. Seu alvo, neste momento, so os milhares de coreanos que vieram para o Brasil trabalhar nas fbricas e empresas da Coreia do Sul. O prximo passo  atrair os empresrios vindos de l  e, claro, cuidar do dinheiro dos brasileiros tambm.

FITZCARRALDO COM FINAL FELIZ
     A histria da formao da Amazonas Filarmnica lembra a do filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog, s que com final feliz. Na fico, o personagem que d ttulo ao filme foi malsucedido ao tentar construir uma casa de pera na Amaznia. Conseguiu apenas realizar uma apresentao itinerante num barco que cruzava os rios da selva. Na vida real, a histria foi outra. H quinze anos, o estado decidiu montar uma filarmnica para retirar da ociosidade o suntuoso e ento recm-restaurado teatro erguido pelos bares da borracha do sculo XIX. "Queramos contratar msicos de alta qualidade, mas seria muito difcil convencer os poucos profissionais do eixo Rio-So Paulo a se mudar para o meio da floresta", conta o secretrio de Cultura Robrio Braga, mentor da ideia. A soluo encontrada foi importar artistas dos pases da extinta Unio Sovitica, conhecida pela excelncia no ensino de msica erudita. 
     Em 1998, dos quarenta integrantes da primeira formao da orquestra, 35 eram estrangeiros  trinta blgaros, russos e representantes de outras nacionalidades do Leste Europeu. "Na ocasio, com cmbio favorvel e o  momento econmico muito ruim no antigo bloco sovitico, era muito barato traz-los." Desde ento, dezenas de novos eslavos aportaram em Manaus. Diversos msicos regressaram ao pas de origem e alguns passaram a integrar outras orquestras no Brasil. Mas as marcas que deixaram na regio so permanentes. Graas a esse intercmbio cultural, a msica erudita floresceu. O nmero de espectadores da pera ao ar livre, um evento anual, passou de 8000 na primeira edio, h dezessete anos, para quase 40.000 na ltima, em 2012. Alm de formarem pblico de msica erudita, os estrangeiros que chegaram a Manaus ajudaram a preparar uma nova gerao de msicos locais. A demanda pelo ensino de msica no liceu estadual, onde inicialmente todos os estrangeiros tinham de dar aulas, saltou de 800 alunos, em 1998, para 12.170 crianas e jovens neste ano. Essa mudana foi sentida at mesmo na orquestra. Na primeira formao, havia apenas dois msicos amazonenses. Hoje, esse nmero chega a vinte, quase todos formados por professores eslavos. Fitzcarraldo ficaria morto de inveja. 
KALLEO COURA

O HAITI TAMBM  AQUI
     Longe dos sagues de aeroportos, o Brasil recebe todos os anos milhares de imigrantes que se arriscam nas fronteiras em busca de uma vida menos miservel. O exemplo mais dramtico  o dos haitianos, que afluem ao pas numa torrente quase contnua desde que mais um terremoto arrasou o j devastado pas, em 2010. Nos ltimos trs anos, entraram no Brasil em torno de 8000 haitianos. Desse contingente, apenas 1500 portavam visto emitido em Porto Prncipe. Os outros 6500 chegaram de modo clandestino e s aqui receberam o visto humanitrio, vlido para trabalhar no pas por cinco anos. A principal porta de entrada desses imigrantes ilegais  a cidade de Brasileia, na divisa do Acre com a Bolvia. 
     Nos ltimos dias, voltaram a acontecer na cidade cenas semelhantes s do perodo ps-terremoto, quando uma multido de haitianos desesperados e famintos acorreu para Brasileia. S na semana passada, esse municpio de 21.400 habitantes recebeu 1300 refugiados vindos do Haiti. O abrigo da  prefeitura, com capacidade para 200 pessoas, ficou irrespirvel. Houve brigas e disputas por comida. A atual corrida deu-se por trs motivos: a Polcia Federal decidiu limitar a emisso de vistos a dez por dia a partir de maro (eram at setenta dirios, antes); o Equador, a rota preferida dos haitianos, anunciou que adotaria medidas para dificultar a entrada deles, o que acelerou a deciso de muitos de migrar para o Brasil enquanto o caminho continuava livre; e intensificou-se a ao dos coiotes, que lucram trazendo os ilegais pela selva. 
     Diante do caos, o governo federal enviou  regio uma fora-tarefa. Em dois dias, todos os 1300 imigrantes tiveram a situao regularizada e comearam, aos poucos, a partir para outros pontos do Brasil em busca de trabalho. Devem juntar-se a seus conterrneos espalhados pelo pas. Empresas de So Paulo e do Sul, de reas que vo da construo civil  alimentao, so as que mais tm aproveitado essa mo de obra.

COM REPORTAGEM DE MARCELO SPERANDIO, JULIA CARVALHO E FABRCIO LOBEL


8. GEOPOLTICA  O SCULO DO PACFICO
Pouca gente duvida que as potncias asiticas vo suceder ao "sculo americano". Mas a onda nacionalista e a corrida armamentista, se desafiam a hegemonia dos EUA, boicotam o sonho da regio de ser um farol para o mundo.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Na histrica visita de oito dias  China em fevereiro de 1972, o presidente Richard Nixon, um anticomunista arrebatado, deu o diagnstico no meio da viagem. "Nesta semana o mundo mudou", disse, ainda na escala em Xangai. A visita normalizou as relaes entre Estados Unidos e China, virou uma pera meio cafona e, Nixon tinha razo, mudou o mundo. Nunca mais o equilbrio de forcas na balana da Guerra Fria seria o mesmo. Agora, outra vez, americanos e chineses esto trocando passos numa dana poltica, econmica e militar que dar o tom das prximas dcadas. O mundo bipolar caiu com o Muro de Berlim. Um novo, outra vez de aparncia bipolar, sobe com a Muralha da China. 
     A espetacular ascenso chinesa est revolucionando a sia. A China  a segunda maior economia do mundo. Quer garantir a hegemonia no seu quintal, como fizeram os Estados Unidos no Caribe depois da guerra civil. Os vizinhos esto assustados com o que o ex-primeiro ministro de Singapura Lee Kuan Yew chamou de "redespertar do sentido de destino" dos chineses. As Filipinas temem por um atol de rochas desabitado  que disputam com a China. O Japo est de planto por umas ilhotas de pedra e vento, que a China diz que lhe pertencem. O Vietn vigia sem trgua seus 3000 quilmetros de litoral, que os chineses cobiam com fora de drago. Mesmo o Vietn desconfia mais da China que dos Estados Unidos. As autoridades de Hani gostam de lembrar que o gigante americano invadiu o Mxico uma vez. O gigante chins invadiu o Vietn dezessete. Os vietnamitas so valentes. Venceram trs imprios, o chins, o americano e o francs, e preferem a Pax Americana  Pax Sinica (o trocadilho com cinismo  involuntrio; espera-se que no seja presciente). Alm de viver uma onda nacionalista, o Pacfico asitico est se armando. 
     Alm de viver uma onda nacionalista, o Pacfico asitico est se armando. A percepo de que h uma corrida armamentista no  equivocada", diz Graeme Herd, especialista em segurana do Centro de Poltica de Segurana, em Genebra. "Mas a razo da corrida armamentista reflete o equvoco baseado no dilema clssico da segurana: reforo meu arsenal para superar o seu  e crio uma corrida." A ndia, que h pouco entrou para o exclusivo clube dos pases com msseis nucleares de longo alcance,  a maior compradora de armas. Em cinco anos, arrematou 10% de tudo o que foi vendido no mundo. O segundo lugar  da China. Em seguida, vm Paquisto, rival histrico da ndia, e Coreia do Sul. Todos vizinhos. 
     Enquanto os Estados Unidos cortam a despesa militar, a China a aumenta. J se prev que americanos e chineses tero gasto semelhante em 2023. O Japo, que se recuperou da tragdia nuclear como smbolo de pacifismo, vem derrubando limitaes legais para expandir sua fora blica. Nos anos 80, passou a patrulhar os mares. Nos 90, fez uso militar do espao. Na ltima dcada, deslocou tropas para o exterior. Diz Richard Samuels, especialista em Japo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts: "O Japo tem uma fora militar formidvel, e no  de agora".
     O ambiente tenso j serviu para paralelos com a Europa do incio do sculo passado. O ex-primeiro-ministro da Austrlia Kevin Rudd acha que as disputas territoriais na sia do Pacfico, associadas s lealdades e aos dios, parecem "os Blcs de um sculo atrs". O ex-chanceler da Coreia do Sul Youngkwan acha que os Estados Unidos lembram o declnio da Inglaterra do fim do sculo XIX e a China parece a ascendente Alemanha unificada de Bismarck. Paralelos so sempre imprecisos. Nesse caso, assustam mais do que explicam, mas no nascem  toa. 
     Mais aliviados do peso do Iraque e do Afeganisto, conflitos que mastigaram 2 trilhes de dlares e milhares de vidas americanas, os Estados Unidos esto voltando suas energias para o Pacfico. Em janeiro de 2012, o governo lanou sua estratgia para o sculo XXI. No documento, fala de todas as ameaas  nuclear, biolgica, qumica, ciberntica, terrorista  e deixa claro que a Europa perde centralidade. "Todas as tendncias, sejam demogrficas, geopolticas, econmicas ou militares, apontam para o Pacfico", disse Martin Dempsey, chefe do Estado-Maior, no lanamento do documento. O local escolhido pelo presidente Barack Obama para apresentar a nova estratgia  inequvoco: o plpito do Pentgono. 
     Num tempo em que s se ouve falar de "deslocamento de poder" e "declnio americano", tudo o que os Estados Unidos querem  manter a hegemonia no Pacfico asitico, garantir a vida dos aliados (Japo, Coreia, Austrlia, Filipinas e Tailndia), dos amigos (ndia, Singapura, Nova Zelndia, Indonsia e Vietn) e, claro, segurar no alto a tocha de seus interesses globais. Com as ameaas estridentes da Coreia do Norte, os americanos j anteciparam em dois anos o deslocamento de um sistema de defesa contra mssil para Guam, territrio na Micronsia. H 80.000 soldados americanos no Japo e na Coreia do Sul. Em maro, aceleraram um programa antimssil de 1 bilho de dlares com catorze baterias na Califrnia e no Alasca, de onde se pode espiar a China. 
     Americanos e chineses no so inimigos. So rivais. O relacionamento militar deixa a desejar, as investidas de ciberespionagem so massivas e as discusses sobre direitos humanos, cmbio e propriedade intelectual so infindveis. Mas os dois pases  felizmente  tm laos comerciais profundos, o que historicamente desidrata a possibilidade de conflitos de sangue. Os Estados Unidos tm 50 bilhes de capital investido na China. Em 2010, as exportaes americanas para os pases do Pacfico, no leste e no oeste, chegaram a 320 bilhes de dlares, garantindo 850.000 empregos americanos. A sia  o epicentro do futuro econmico. Tem metade da populao mundial, dois oceanos (Pacfico e ndico) e trs poderes emergentes (China, ndia e Indonsia). Tem po, com as economias que mais crescem, e tem circo, com o dirigente mais palhao do planeta, o norte-coreano Kim Jong-un. 
     O ponto nevrlgico da geografia do Pacfico asitico  o Mar da China Meridional. Alm de rico em petrleo e gs natural, esse mar  o leito de um tero do trfego martimo do mundo. Por ali, passam 80% da energia chinesa, 70% da sul-coreana e 60% da japonesa. O estreito de Malaca, que d acesso ao Oceano ndico,  trs vezes mais movimentado que o Canal de Suez no fluxo de petrleo e quinze vezes mais que o Canal do Panam. Manter a navegabilidade dessa rota martima  vital para o comrcio global. "Esse  o verdadeiro bem pblico que os Estados Unidos oferecem ao mundo", escreveu o analista internacional Robert Kaplan. A China quer o controle da regio, que os americanos chamam, pelo seu formato, de "lngua de vaca" (veja o mapa na pg. ao lado). 
     Na cultura americana, o Pacfico sempre produziu fascnio e, desde o ataque a Pearl Harbor, produz desconfiana e medo. H reciprocidade. Os japoneses acham que as bombas nucleares no caram em Berlim nem em Munique porque em Hiroshima e Nagazaki havia japoneses. As cicatrizes da guerra aparecem, mas o curso da vida mostra que so o que so: cicatrizes. Os marines fizeram h pouco treinamento militar com os japoneses no qual ensinaram tcnicas que aprenderam para derrot-los na II Guerra. Apesar dos aliados e amigos, o desafio para os Estados Unidos  como manter a hegemonia numa regio em que cresce um drago hegemnico. 
     A China, no primeiro trimestre deste ano, cresceu estupendos 7,7%  e foi uma decepo. Esperava-se ainda mais. Aumenta a presso para que os Estados Unidos reduzam sua presena militar naquela rea e passem a incentivar os aliados confiveis a tomar conta da ordem local. Para os americanos,  uma forma de manter influncia, indireta, e diminuir custos. Christopher Layne, professor de assuntos internacionais da Universidade Texas A&M, alerta: "Alm da questo do custo, manter a primazia na regio  perigoso porque coloca os Estados Unidos em rota de coliso com a China". A China tem chance de superar a fora militar americana na regio, mas seu esforo belicista boicota suas pretenses de potncia mundial. Essa  a verdadeira Muralha da China. Ela s pode ser superada de dentro para fora com soft power, uma cultura que encante o mundo por seu respeito aos direitos individuais, pela igualdade entre os gneros e pelo apego  paz. Isso no se consegue com canhes.


9. ARTIGO  J.R. GUZZO  UM MUNDO ESCURO
     Est cada vez mais difcil, em nosso mundo de hoje, encontrar inocentes. No exato momento em que estiver lendo estas linhas, o leitor poder muito bem estar sendo culpado pela prtica de algum delito srio, mesmo que no saiba disso  e provavelmente no sabe. Como poderia saber? As noes de certo ou errado, de bem ou mal ou de justo e injusto, cada vez mais, so definidas por dezenas de "causas", em relao s quais  indispensvel estar do lado correto. E que lado  esse?  o lado dos donos ou dos militantes dessas causas  tarefa complicada, considerando-se que elas se multiplicam sem parar, no tm conexo nenhuma entre si e sua prpria existncia, muitas vezes,  completamente desconhecida do pblico em geral. Com o desmanche cada vez mais rpido de qualquer valor ou princpio na atividade poltica, e o falecimento da ideia geral de "direita" e "esquerda", o campo do "bem" vai sendo ocupado por movimentos que defendem ou condenam todo tipo de coisa. Importa cada vez menos, tambm, o divisor de guas formado pelo conjunto de valores morais como integridade, decncia, gratido, generosidade, honradez, cortesia e tantos outros que marcavam a correo do indivduo, do ponto de vista pessoal, na vida de todos os dias. O cidado, hoje, pode ser tudo isso ao mesmo tempo, mas ainda assim no ser inocente  basta no concordar com as bandeiras em voga, ou ser indiferente a elas, ou no saber que existem. 
     Todas essas cruzadas se declaram proprietrias exclusivas do bem e tm, cada vez mais, a certeza de que a lgica, os argumentos baseados em fatos e o livre debate devem ceder lugar  f  a f dos dirigentes e militantes das "causas", que se julgam moralmente superiores e, portanto, autorizados a exigir que todos abram mo de seu direito a raciocinar e simplesmente concordem com eles. O lado escuro disso tudo  que a defesa de tais bandeiras est se tornando cada vez mais fantica  e o resultado  a criao, pouco a pouco, de um novo totalitarismo. Nega-se s pessoas o direito de discordar de qualquer delas e, principalmente, de criticar seja l o que proponham; no  permitida nem a simples neutralidade, pois quem  neutro  considerado cmplice do mal. Os efeitos prticos so muito parecidos com os que se produzem nas ditaduras  e sua primeira vtima  a liberdade de pensar e de exprimir o que se pensa. 
     Muito de todo esse rudo  simplesmente cmico; alm disso, ao contrrio do que acontece nas tiranias, os lderes das novas causas no tm a seu dispor a fora armada para obrigar o pblico a obedecer a suas decises. Mas, em ambos os casos, sua atividade est gerando cada vez mais consequncias na vida real. Ainda h pouco, um anncio da agncia AlmapBBDO mostrava um gato preto subindo no capo de um Volkswagen, numa brincadeira 100% inocente a respeito de sorte e azar. Ideia proibida, hoje em dia. Grupos que defendem a causa dos gatos, de qualquer cor, decidiram que o comercial estimulava a "perseguio" e o "desrespeito" ao gato preto, e exigiram da empresa que o comercial fosse retirado do ar. Ganharam: a Volkswagen, uma das maiores companhias do mundo, com mais de noventa fbricas, 550.000 empregados e faturamento superior a 200 bilhes de dlares em 2012, ficou com medo do pr-gato e topou, sim, cancelar o anncio. H uma coisa muito parecida com isso  ela se chama censura. A AlmapBBDO, uma das agncias de publicidade mais respeitadas do Brasil, queria levar o comercial ao pblico, como a imprensa queria publicar notcias durante a ditadura militar. Mas a cruzada dos gatos, como acontecia na poca em que o governo cortava as notcias que lhe desagradavam, no quis. Nas duas situaes  uma pela fora bruta, a outra pela presso bruta  o resultado prtico  o mesmo: aquilo que deveria ter sido publicado no o foi. Qual  a diferena? 
     Episdios como esse vo se tornando comuns e, para piorar as coisas, deixam atrs de si uma nuvem radioativa que contamina o ambiente do pensamento e faz com que as pessoas fujam das reas de perigo.  muito pouco provvel que a AlmapBBDO volte a criar comerciais com algum gato no enredo, ou qualquer outro animal. Para qu? Outras agncias vo tomar, ou j tomaram, a deciso de cortar o reino animal do seu universo criativo  e tambm, por via das dvidas, o reino vegetal e o reino mineral, pois  possvel que provoquem objees dos movimentos que atribuem direitos civis s rvores, ou s pedras, ou sabe-se l ao que mais. Os jornalistas e os rgos de imprensa, com frequncia, vo pegando uma alergia cada vez maior a tratar de certos assuntos. "Isso vai dar confuso", ouve-se todos os dias nas redaes. "Melhor a gente ficar fora dessa." O mesmo se aplica a polticos, por seu natural pavor de perder votos, a artistas que no querem ficar mal "na classe" e a mais um caminho de gente capaz de ter posies claras, mas incapaz de arrumar coragem para falar delas em pblico.  
 apenas natural que a situao tenha ficado assim. No vale a pena, para a maioria, dizer o que pensa e ser imediatamente amaldioado como racista, cruel com os animais, homofbico, nazista, destruidor da natureza, inimigo da fauna e da flora, poluidor de rios, lagos e mares, vendido aos interesses das "grandes empresas", carrasco das "minorias", assassino de bagres e por a afora. Ser um mero defensor da luz eltrica, e achar natural, para isso, que sejam construdas usinas geradoras de energia passou a ser, no cdigo da "causa ambiental", um delito grave. Pior ainda  ser chamado de agricultor" ou "pecuarista"  as duas palavras passaram a ser utilizadas pelos militantes como um puro e simples insulto. Eis a, por trs de todo o seu verniz de atitude moderna, democrtica e defensora da virtude, a essncia do totalitarismo que vai sendo imposto pelas "causas" do bem. O alicerce central de sua postura  raso e estreito: "Ou voc pensa como eu, ou voc  um idiota: ou voc pensa como eu, ou voc est errado". Ou voc  coisa ainda muito pior, dependendo do grau de ira que sua opinio despertou neste ou naquele movimento. 
     Se discordar, por exemplo, de uma mudana na lei trabalhista, vo acus-lo de ser a favor da volta da escravatura. Se criticar a doao de latifndios a tribos de ndios, pode ser chamado de genocida. Se achar errado o Bolsa Famlia, vai ser condenado como defensor da misria. Se sustentar que o sistema de cotas para negros nas universidades tem problemas srios, vira um racista na hora. Se julgar que os governos do PT so um exemplo mundial de incompetncia, ignorncia e vigarice, ser includo na lista negra dos que so contra o povo, contra a ptria e contra as eleies. Falar mal do ex-presidente Lula, ento,  um caso perdido. Como ele diz em seus discursos que o seu segundo objetivo na vida  governar para os pobres (o primeiro, segundo uma confisso que fez h pouco,  "viver o cu aqui mesmo na terra"), quem no gosta do ex-presidente s pode ser contra os pobres. A alternativa  ouvir que voc, at hoje, no se conforma com o fato de que "um operrio tenha chegado  Presidncia" etc. etc., como o prprio Lula nos diz todo santo dia, h mais de dez anos. 
     Com certeza h pessoas bonssimas, e sinceramente interessadas no bem comum, na maioria das "causas" em cartaz hoje em dia  no lhes passaria pela cabea, tambm, imaginar que esto construindo um mundo totalitrio. Mas sua recusa em raciocinar um pouco mais, e em agredir a lgica um pouco menos, acaba levando-as, mesmo que no percebam, a uma postura de autoritarismo aberto diante da vida. A modelo Gisele Bndchen, por exemplo, prope nada menos que uma "lei internacional" obrigando todas as mulheres a amamentar seus filhos. Gisele pode ser mesmo uma devota dessa postura, mas, ao querer que sua opinio pessoal seja transformada em "lei", ela mostra uma outra devoo: o desejo de mandar no comportamento dos outros. E as mulheres que no querem amamentar  como ficam os seus direitos? Qualquer pessoa que quer nos impor uma escolha forada, diz o psicanalista Contardo Calligaris, de So Paulo, provavelmente est interessada, acima de tudo, em "afirmar e consolidar seu poder sobre ns". 
     Um outro txico que alimenta essa marcha da insensatez  a ignorncia. Somada  deciso de atirar primeiro nos fatos, e perguntar depois quais eram mesmo esses fatos, leva a episdios de circo como o movimento "Gota d'gua"  no qual um grupo de atores e atrizes tentou demonstrar, no fim de 2011, que a usina de Belo Monte seria uma catstrofe sem precedentes para o Rio Xingu e para a ecologia brasileira em geral. No vdeo que gravaram com o propsito de provar suas razes, confundiram o Par com Mato Grosso, colocaram a usina a mais de 1000 quilmetros do lugar onde est sendo construda e denunciaram a inundao de terras ocupadas por ndios  quando no h um nico ndio na rea a ser alagada. Foi um desempenho digno de entrar na lista das piores respostas do Enem. Mas os artistas continuam achando que esto certssimos; sua "causa"  justa, dizem eles, e meros fatos como esses no tm a menor importncia, pois o que interessa  o triunfo do bem. 
     "No h expediente ao qual o homem deixar de recorrer para evitar o real trabalho de pensar", disse, no fim dos anos 1700, o grande mestre da arte inglesa do retrato, sir Joshua Reynolds. Hoje, mais de 200 anos depois, sua tirada  um resumo praticamente perfeito da turbina-me que faz girar a mquina das "causas" justas. Nada as incomoda tanto quanto o ato de pensar. Preferem receber insultos, porque podem responder com insultos  o que no toleram  a tarefa de raciocinar em cima de fatos, reconhecer realidades e convencer pelo uso da inteligncia. Algum tempo atrs esta revista publicou, com a assinatura do autor do presente artigo, um conjunto de consideraes sobre o que julgava serem exageros, equvocos ou distores do chamado "movimento gay". Tudo o que foi escrito ali recebeu uma fenomenal descarga de dio, histeria e ofensas, nas quais foram includas diversas maldies desejando uma morte rpida para o autor. Mas o que realmente deixou a liderana gay fora de si, acima de qualquer outra coisa, foi a afirmao de que casamento de homem com homem, ou de mulher com mulher, no gera filhos.  apenas um fato da natureza  mas  exatamente isso, o fato, o pior inimigo das "causas". No pode ser anulado por abaixo-assinados, redes sociais ou passeatas. A nica sada  mant-lo oculto pelo silncio. 
     Por essa trilha, caminhamos para um mundo de escurido. 


